Deus Mora na Casa da Utopia – Porque Sonhos Não Envelhecem*

Tree growing through cracked earth

No momento de insegurança dos discípulos que estão trancafiados numa casa e temendo o pior. Nesse contexto Jesus aparece. E é esse acontecimento que nos leva a refletir que a morada de Deus é a utopia. Mas é preciso lembrar que essa Utopia não é alienante, ela é realista e esperançosa.

Não tem anestesia no aparecimento de Cristo. O Cristo ressurrecto mostra suas feridas. O corpo de Cristo foi machucado, brutalizado, privado de liberdade, foi assassinado. O coração de Deus quando se encarnou em Jesus de Nazaré experimentou o peso da opressão. Existe no evangelho um convite a dilatação do nosso coração, ao encontro do sofrimento do povo. Deus se deixa atravessar pela dor do povo que não necessariamente clamava pelo seu nome.

A perspectiva harmônica do jardim foi se perdendo pela hierarquização, pelo peso da lei, pela escravidão. A dor proveniente dessa crise fatalmente humana, se encontra com os gritos dos profetas do antigo testamento e, por fim, no corpo do filho de Deus encarnado.

E quando Jesus vem e vive o Reino de Deus, Ele desautoriza a ordem hierárquica, o poder estatal e o dogma religioso. Na vida de Jesus há sarcasmo acerca do poder de César, rebeldia no templo e inversão de hierarquia para aqueles que queriam ser os maiorais. Jesus dessacraliza as instituições que caminham no sentido contrário do afeto e da comunhão.

Entretanto, para além desse realismo que desautoriza o egoísmo, o egocentrismo, há também uma anunciação. O Jesus que aparece na casa das portas fechadas anuncia a alegria, o jubilo e o futuro marcado pela dimensão desejante da vida. Jesus teima em viver e anunciar a vida onde finalmente as lágrimas serão enxugadas e o ouro finalmente ficará abaixo de nós, porque é isso que as ruas de ouro de apocalipse sugerem.

Uma cidade jardim que anuncia a plenitude. Por que se participamos do sofrimento de Cristo, também participamos da sua glória. Porque o corpo de Cristo é o corpo da dor, mas é também o corpo da festa, da celebração, de quem apesar da morte, vive, e de quem apesar dador, sorri.

Por fim, o que significa evangelho? Uma boa nova, uma boa notícia. A esperança que nos invade se encontra no próprio termo. Essa boa notícia aparece num lugar de fronteiras militarizadas, numa terra empobrecida, sob o domínio de um estado opressor aliado com o poder religioso e que se nutre da exploração do trabalhador. Esse é o lugar aonde aparece o evangelho, onde ele é anunciado.
Nossa esperança, e portanto nossa utopia, tem que se traduzir em fazer algo no tempo presente. Somos convidados a descentralizar nossas vidas do projeto de Reino de Deus. Criar comunidades de pessoas livres. Se satisfazer em cuidar do pequeno mundo. Caminhar junto, ressignificar o que é propriedade, sonhar e sorrir.

* Texto baseado na pregação de Henrique Vieira – dia 16/10/2016. Referência bíblica: João 20

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